Direito
Ambiental

Direito Ambiental
Sergio Luis Mendonça Alves

O que é isto companheiro? Herança do mesmo?*

"...A inércia só se vence com o passo fundador. E na política esse é, constitutivamente, o da força mobilizadora de outro enfoque e de outra identidade de representação brasileira do mancho das decisões. Aos erros ou entorses de uma adaptação ao mando, opta-se por uma economia de riscos, de preferência à retomada dos pesos, das rotinas e da 'herança do mesmo', deixados à porta de quem a abre de dentro do Planalto...".
Candido Mendes1


Nas eleições presidenciais passadas a crença do povo brasileiro estava voltada à necessidade de mudanças. Por essa razão elegemos um Presidente da República cujo discurso contrariava, até então, a "herança do mesmo", que ouvimos durante longos oito anos do reinado fernandohenriquiniano.

Erramos? Vencerá a "utopia do possível" da era de Dom Fernando Henrique, ou ainda podemos sonhar com as mudanças tão proclamadas?

Outrora, criticamos de forma severa cortes de orçamento em projetos sociais, de investimento no Brasil, que serviram para alimentar o dragão do mercado especulativo (esperamos que nossa crítica, expressa na obra Estado Poluidor2, não venha a abalar o sono parisiense do nosso ex-presidente).

Reconheço que são passados somente 50 dias do Governo de Luiz Inácio, mas cortar o orçamento aprovado pelo Congresso Nacional em percentual de 12,44% na área social, e 42,07% no restante, é assistir a filme que imaginei arquivado em algum museu da imagem e do som, aqueles em que guardamos nossa cultura dos tempos da Atlântida ou Vera Cruz.3

Parece que não.

Vimos o Presidente indicar para a pasta de Meio Ambiente uma senadora de seu partido que não recebeu nenhuma crítica de quaisquer setores da sociedade - ao contrário, foram muitos os elogios - principalmente do movimento ambientalista e que, de forma coerente, escolheu uma equipe composta de outros tantos especialistas respeitabilíssimos na seara socioambiental.

Para que?

Para decorridos apenas 40 dias de governo serem surpreendidos com um "puxar de tapetes" assombroso, com corte orçamentário no Ministério do Meio Ambiente de 56,70% das verbas a ele destinadas e que já se mostravam insuficientes.
Como preservar, como fiscalizar a atuação dos predadores ou poluidores, dos piratas aos madeireiros; dos industriais aos comerciantes, que com seus resíduos conspurcam nosso ambiente? Como tornar sustentável a vida nas cidades, se o Ministério a ela destinado - criação do novo governo - recebe um corte mais profundo de 85,19%?

Que prioridade é esta Presidente - combate à miséria - se vamos cortar a expectativa de vida saudável de 11,1 milhões de pessoas e, como um retorno à "herança do mesmo", anunciar que os investimentos em saneamento serão realizados pela Caixa Econômica Federal com recursos do FGTS4 - aquele que foi brutalmente vilipendiado pelos planos econômicos anteriores, ceifando o poder aquisitivo da camada mais humilde de trabalhadores, despedidos pela crise ou pela automação (novidade!!! Agora teremos caixas automatizados!!! Que maravilha a tecnologia que subtrai nossos empregos...)5.

E vejam que ironia: vamos enfrentar, "no primeiro ano de mandato, a maior crise de desemprego da história do país. As medidas já anunciadas pelo novo governo, como a elevação dos juros e o corte de investimentos, farão disparar o desemprego em 2003" [sic]6.

Quer outra: o empresário proprietário da rede de supermercados(6) que estará - como as motoserras operam o mogno e outros espécimes da flora brasileira esta mudança trará a extinção dos postos de trabalho de milhares de caixas (aquelas que sorriem e perguntam se você possui o "cartão mais") - entre os representantes do Conselho Econômico e Social discutindo políticas de geração de emprego, outra "marca" social do governo que se instala.

Parece mais do mesmo...se recordarmos que na época de Sarney (eleito agora Presidente do Senado com apoio do partido do Presidente) - do plano cruzado - este mesmo empresário, que também participava de Conselho semelhante, foi acusado de estocar latas de óleo em período de desabastecimento.

Só falta o Ministro do Trabalho, ou quiçá o próprio Presidente, afirmar que os desempregados do setor de prestação de serviços serão aproveitados na área industrial (os bodes expiatórios da gestão anterior).

Infelizmente não são só os cortes que denunciam o "mal passo" em matéria ambiental.

Novamente "o mais do mesmo" volta a nos assombrar.

Em dias passados nosso sábio governo - motivado pela herança colonial - autorizou o ingresso no país de toneladas de pneus reciclados importados. Pagamos em moeda forte, o dólar, o resíduo industrial dos países ricos, o "excremento do diabo", no disfemismo de Rubem Alves: "...Hoje, o problema do lixo assume proporções apocalípticas e infernais. As toneladas de fezes e urina produzidas pelos milhões que moram nas grandes cidades são impensáveis - e vivemos na ilusão de que uma descarga de água na privada tem o poder de fazê-las desaparecer magicamente. 'Longe dos olhos, longe do coração e do pensamento'. O problema fica infinitamente mais grave quando pensamos nos novos e fantásticos materiais produzidos pela ciência e pela indústria. Os plásticos, os pneus, as garrafas, as latas de refrigerantes, o papel (aproxima-se o Natal e, com ele, o dilúvio...). Para onde vão? Vão para algum lugar e aí ficam, sendo que os produtos de plástico e os pneus atravessam os milênios."8

Pois não é que o diabo, e seus excrementos, voltam a assombrar a Presidência da República que, contrariando a vontade de participação da coletividade na preservação ambiental (CF art. 225, caput), que se expressa nos Conselhos de que participa (CONAMA, CONSEMAs, etc.), autoriza, por decreto9, a importação de pneus usados do Mercosul, violando resoluções do CONAMA, exatamente no ano em que o Brasil supera a meta de reciclagem de pneus que fabricamos e aqui utilizamos.

Qual será a destinação futura destes pneus? O rio Tietê, Presidente?
Decisão de "Tribunal Arbitral do Mercosul" viola nossa soberania e condena o ambiente em que viverão gerações futuras de brasileiros.10

Tenha dó, Senhor Presidente!!!

E a gasolina, Senhor Presidente...Bonito hein!!! Não bastasse o preço extorsivo, que gera inflação, retornamos à "herança do mesmo" com a redução do teor de álcool na gasolina, de 25% para 20%, que contribui "para o aumento da poluição no já comprometido ar da Grande São Paulo e, mais grave, cause um crescimento de 6,5% nas emissões do tóxico monóxido de carbono(CO)".11

Beijinhos e abraços na Ministra não resolvem Senhor Presidente. É preciso ouvi-la antes de tomar decisões desta natureza.

Até mesmo o plácido acadêmico José Goldemberg, nosso secretário de meio ambiente, "deu pito" na sua ministra, antiga militante do movimento dos seringueiros e da luta pelas reservas extrativistas12, a quem só cabe mesmo bradar por ação conjunta de todos os ministérios na questão ambiental. Mas, isto já não havia sido combinado, Ministra?13.
Vou começar a prestar mais atenção no que dizem os radicais que, como eu, ainda reclamam mudanças.

1 MENDES, Candido. Lula: a opção mais que o voto.- Rio de Janeiro: Garamond, 2002, p. 27;

2 ALVES, Sergio Luis Mendonça. Estado Poluidor. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2003 (no prelo);

3 PATU, Gustavo e MUGNATTO. Lula impõe corte de R$ 5. Bi a ministérios da área social. Folha de São Paulo, caderno Brasil, 12/02/2003, p. A4;

4 ATHIAS, Gabriela. Cortes deixarão 11 milhões sem saneamento. Folha de São Paulo, caderno Brasil. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1502200312.htm - acesso em 17/02/2003;

5 FOLHA DE SÃO PAULO. Supermercado testa caixa sem caixa. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1202200332.htm - acesso em 17/02/2003;

6 ROLLI, Claudia e FERNANDES, Fátima. Lula enfrenta maior desemprego da história. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1602200315.htm - acesso em 17/02/2003;

7 Estamos nos referindo à rede de Supermercados "Pão de Açucar" e ao Sr. Abílio Diniz;

8 ALVES, Rubem. De Excrementis Diaboli. Folha de São Paulo, caderno Opinião/Tendências e debates, 22/Nov/98, p.1-3;

9 SALOMON, Marta. Lula Libera importação de pneus usados. Folha de São Paulo, caderno Cotidiano, 13/02/2003, p. C10;

10 CAMPANILI, Maura. Ministra quer ação conjunta na área ambiental. O ESTADO DE SÃO PAULO, Geral, 18/02/2003, p. A14;

11 VIVEIROS, Mariana. Mudança na gasolina aumenta poluição. Folha de São Paulo. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0702200318.htm - acesso em 11/02/2003;

12 SILVA, Marina. Histórias da floresta, da vida e do mundo. In: O desafio da sustentabilidade: um debate socioambiental no Brasil.- São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 199-212;

13 CAMPANILI, Maura. Ministra quer ação conjunta na área ambiental. O ESTADO DE SÃO PAULO, Geral, 18/02/2003, p. A14.

* Artigo publicado originalmente no site www.emporiodosaber.com.br