Direitos
Humanos

Direitos humanos
Sergio Luis Mendonça Alves

Quem pedirá desculpas pelas ações do Senhor Hummes?

“... A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isto lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso que é a imortalidade de que tanto se fala...”.

José Saramago

Você acreditaria que um Cardeal, Arcebispo do mais “desenvolvido” Estado da Federação, Grão-Chanceler — no AURÉLIO o verbete Chanceler significa “diplomacia, chefia de governo, encarregado de relações exteriores” , enquanto “Grão”, dentre outros significados, e a escolha neste caso é nossa, traduz “quantidade mínima de qualquer coisa” —, de uma das maiores Universidades Católicas do mundo poderia desconhecer (não leu ou não entendeu seu significado) uma das mais conhecidas Encíclicas Papais, a Rerum Novarum?

Relembremos Rubem Alves, para quem “o aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho”.

Nós também não acreditávamos. Mas, hoje, passamos a crer que este Senhor leu e não a compreendeu. E a razão é simples: ele representa, pelo nosso idiotismo (e aqui se deve traduzir por “linguagem vulgar” ), pela nossa hermenêutica medíocre, “uma quantidade mínima de diplomacia, de chefia de governo” , mas é expert em relações exteriores. Cumpriu, como ninguém esperava, a missão que os dois grandes bancos credores da Universidade lhe determinaram: demita pais, mães e filhos da família de professores e funcionários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a fim de abastecer, do mais puro e precioso prazer, nossos acionistas, naquilo que Francisco Oliveira chamou de “a opção preferencial pelos bancos” (FSP. Qual a opção preferencial? Tendências e Debates, 11/03/2006).

As encíclicas, recordam os arquivos da Folha (FSP. O que é encíclica . Editoria Mundo, 15/Out/98, p.1-10) eram “empregadas para designar as ‘cartas circulares' enviadas pelos bispos a seus colegas de uma mesma região, para assegurar a unidade doutrinal e a partir de Bento XIV, em sua ‘Epistola Encyclica commonitoria ad omnes episcopos' (Carta circular de advertência a todos os bispos), de 3 de dezembro de 1740, esse termo se restringiu às mensagens dirigidas pelo papa, em forma de carta, a toda a Igreja Católica, ‘aos patriarcas, primazes, arcebispos, bispos e outros ordinários (comuns) em paz e em comunhão com a Sé apostólica'. As encíclicas pertencem ao genêro das ‘cartas apostólicas', distinguindo-se, porém, pela universalidade de seus destinatários”.

O Papa Leão XIII ao trazer a público a Rerum Novarum (1891) “explica as bases da doutrina social da igreja numa sociedade industrializada e condena a tendência dos Estados modernos de usurpar os direitos do indivíduo. Aconselha, no entanto, a proteção pelo Estado dos interesses da classe assalariada”.

Revivamos aos desmemoriados, e àqueles que não tiveram o alcance dos ensinamentos dessa “obra prima” , alguns de seus postulados. Esperem um pouco! Postulado não significa “tempo de exercício e provações que antecede o noviciado das comunidades religiosas”? Sim! Então, é possível compreender as ações do Senhor Hummes!!! Ele está em provação, ou é um noviço. Não. Definitivamente, não. Eis mais uma idiotice nossa (aqui entendida como retrato de alguém pouco inteligente; estúpido, ignorante, imbecil ou, quiçá, pretensioso ou afetado). Certamente é isto, pois somente um imbecil, pretensioso ou afetado, como nós, mero empregado ousaria vilipendiar as “sábias” decisões de um “Pontífice” regional.

Fosse vivo ainda, quiçá o Cardeal Lorscheider, o fizesse, pois houvera afirmado, durante uma das missas, que “a economia que vivemos atualmente mata a pessoa" (FOLHA DE SÃO PAULO. Missa em Aparecida critica desemprego. Editoria Cotidiano, 13/Out/99, p.3-4).

Ignoremos esta especulações e partamos para algumas poucas diretrizes do Sumo Pontífice, PAPA LEÃO XIII, para seus “patriarcas, primazes, arcebispos, bispos e outros ordinários (comuns) em paz e em comunhão com a Sé apostólica" , o que, salvo mais uma interpretação equivocada nossa, também envolve os representantes do BANCOCOMPLETO, ou do outro, o Banco com REAL responsabilidade social, a saber: 1 . “...E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça” ; 2 . Obrigações dos operários e dos patrões: entre estes deveres, eis aqueles que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integralmente e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências, e nunca revestirem a forma de sedições ; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhes sugerem esperanças exageradas e lhes fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas... (...) Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do cristão . O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano e usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, que o operário, não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família, nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo. Mas entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém ... "Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós; e o seu clamor subiu até os ouvidos dos Deus dos Exércitos "; 3 . “Exemplo e magistério da Igreja: a Igreja não se contenta com indicar o caminho que leva à salvação; ela conduz a esta e aplica por sua própria mão o conveniente remédio. Ela dedica-se toda a ensinar e a educar os homens segundo os seus princípios e a sua doutrina, cujas águas vivificantes ela tem o cuidado de espalhar, tão longe e tão largamente quanto lhe é possível, pelo ministério dos Bispos e do Clero. Depois, esforça-se por penetrar nas almas e por obter das vontades que se deixam conduzir e governar pela regra dos preceitos divinos. Este ponto é capital e de grandíssima importância, porque encerra como que o resumo de todos os interesses que estão em litígio, e aqui a ação da Igreja é soberana. Os instrumentos de que ela dispõe para tocar as almas, recebeu-os para este fim, de Jesus Cristo, e trazem em si a eficácia duma virtude divina. São os únicos aptos a penetrar até às profundezas do coração humano, que são capazes de levar o homem a obedecer às imposições do dever, a dominar suas paixões, amar a Deus e a seu próximo com uma caridade sem limites, a esmagar corajosamente todos os obstáculos que dificultam o seu caminho na estrada da virtude” (os grifos são nossos).

Ah! Que fabulosa esta encíclica não, Senhor Hummes. Mas, fica claro por estes ensinamentos — aí vêm mais uma leviandade nossa —, pois à Igreja educadora, enquanto empregadora, não se aplicam estes postulados. Não é assim, Cardeal?

Aos “operários da educação” , constando de listas, ou não, em se tratando da Igreja o patrão “as suas reivindicações devem ser isentas de violências, e nunca revestirem a forma de sedições” e, o primordial, “fujam dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhes sugerem esperanças exageradas e lhes fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas”, como nós, que vos incitamos, com nossas idiotices, à leviandade e à insubordinação, muito embora até este momento tenhamos sido, todos os Chefes de Departamento (ou vices, como é o nosso caso), omissos e crédulos. Omissos ao permitir e não só, até mesmo anuir, que lhes reduzissem o salário, e crédulos (indivíduos ingênuos), que imaginavam que estes postulados se aplicavam à Igreja empreendedora. Ela está apenas fazendo o que os administradores do passado recente chamam de “reengenharia” , estão apenas “adequando” receitas e despesas e contribuindo para a perpetuidade e elevação do “exército industrial de reserva” . Opa!!! Perdão Cardeal, foi um deslize de nossa parte, pois este é um postulado marxista, que apreendemos com nossos professores da PUC/SP.

A propósito, recordando-nos de um deles, HERMÍNIO ALBERTO MARQUES PORTO (demitido, e readmitido logo após, como um relâmpago, certamente resultado do arrependimento, do remorso , daqueles que elaboraram a lista , também seus alunos, como uma espécie de crédito que tinham com os interventores, por haverem elaborado as malsinadas listas), não nos vieram à memória suas lições de Direito Processual Penal, muito menos sua clássica obra sobre o Júri. Recordamo-nos do homem e de sua inesquecível e invejável coragem, dignidade e altivez, quando, em agosto de 1978, de braços dados , à então Reitora NADIR KFOURI — Ah! que belo exemplo de coragem e altivez, hein Magnífica Reitora MAURA —, postaram-se à frente dos policiais da tropa de choque da Polícia Militar, forte e desnecessariamente armados, enquanto violavam a consciência da comunidade da PUC/SP e conspurcavam nossa propalada garantia à “autonomia, didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial” (CF 207), na célebre invasão de nosso campus.

Certamente, a esta altura, pairando sobre nossas lembranças e consciências, estará a MAGNIFÍCA REITORA NADIR KFOURI , a observar que seus atuais algozes, Reitora Maura Veras — se é que efetivamente o sejam —, não portam armas, cassetetes ou granadas, mas tão somente a força e a arrogância do capital, que seus livros, Reitora, até dias atrás , e que consistiriam bibliografia de nossa tese de doutorado, tanto condenavam.

O que fazer? Ôpa..., desculpe-nos, Cardeal, isto lembra o título de uma obra de Lênin e eu já passei da idade de acreditar em vãs promessas da esquerda ou de esperanças, que não vieram, e nem virão, com os que aí estão, a exercer o poder federal.

Abandonemos de vez a ideologia da “esquerda” e voltemo-nos a outro prócere da Igreja Católica , o padre Vieira, relembrado por Comparato, que em seus “Sermões” ousava afirmar que “...Dificilmente resistimos às seduções do poder, às suas pompas e às suas glórias. ‘Não há coisa que mais mude os homens ', observou saborosamente o padre Vieira, ‘do que o descer e o subir; e o subir muito mais do que o descer '. Daí porque Montesquieu só encontrava remédio para a tendência universal ao abuso de poder político na montagem institucional de um mecanismo de poderes e contra-poderes. ‘É preciso que, pela própria disposição das coisas, o poder freie o poder'. Já não se trata, portanto, de confiar cegamente nos homens, mas de saber que qualquer um de nós, quando no poder, é facilmente levado ao desatino, se não for convenientemente enquadrado pelas instituições políticas” .

Professor Comparato, qual seria o contra-poder a frear o autoritarismo (ou seria totalitaristo?) clerical?

Agora não é mais o poder político; contra quem podemos, vez ou outra, ainda que de forma cambaleante, buscar amparo, em parte, no Ministério Público ou no Poder Judiciário (claro que estou excetuando a Suprema Corte, diante de seus recentes e tristes episódios de subserviência), falo dos “Juízes de Berlim” — sim, eles ainda existem —, agora é a Igreja e, mas uma vez buscamos pela memória, e vamos extrair da interpretação de Otto Maria Carpeaux., sobre a obra de Miguel de Cervantes (não é provocação, é pura coincidência...), um bom conselho e uma sábia advertência. Iniciemos com a sábia advertência: “...as forças às quais Dom Quixote se quer opor limitam, todas elas, a liberdade humana: o Estado e sua polícia, a Igreja , as atividades econômicas, as diferenças sociais”.

Ver-se-á, concluímos nós, que dessa luta o que sobra é a harmonia do ridículo e do melancólico, ao qual nos expomos neste artigo. Quanto ao bom conselho, deixemo-lo para o final.

Retomemos o título deste artigo e recordemos que, recentemente, a Igreja vêm se desculpando, com alguma insistência, de suas mazelas, cometidas ao longo de séculos. Assim denunciava a Folha ao mencionar um balanço geral encomendado pelo papa João Paulo II sobre os erros que ela cometeu ao longo dos séculos, denominado "A Igreja e a culpa do passado" (FSP. Igreja prepara documento de "mea culpa". Editoria Mundo, 27/Nov/99, p. 1-17), trazido à luz ainda durante seu pontificado, com rara clareza diante do “arrependimento” , dentre outros, pelo seu comportamento em face da escravidão, durante o Holocausto e a perseguição de "hereges" durante a Inquisição.

Pois então, diante dos equívocos do Senhor Hummes — omisso ou complacente, como o Cardeal Arns, com os desmandos e a ineficiência administrativa do então Reitor Antonio Carlos Ronca — em fevereiro de 1999 o déficit era de R$ 1,5 milhão, hoje de R$ 4 milhões (FSP. PUC-SP enfrenta déficit de R$ 1,5 milhão. Cotidiano, 20/02/99, p.3-5) —, premiado com sua má-gestão, ao final, pelo Governo Lula, olvidando-se, tal qual o atual Governo, que também tem perda de memória freqüente, da necessária e imprescindível fonte de custeio, com um cargo no Conselho Nacional de Educação. Quem da Reitoria, ou dos demais órgãos internos, e quando, pedirá perdão pelos equívocos desse Senhor?.

Para se informar, procurem nos arquivos da Folha a denúncia de Josias de Souza (FSP. Descobertos 47 esqueletos no armário do conselho de filantropia . Edição de 03/02/02).

Tal qual, o louco e desatinado personagem de Cervantes — embora em nosso caso não contemos com a fogueira, mas a pura e simples demissão, quiçá uma excomunhão, não obstante estejamos exercendo a liberdade de crítica e a autonomia na tão propalada democracia da PUC/SP —, continuaremos a bradar, aos quatro cantos, a insensatez de todo este processo deflagrado pela Igreja. Aliás, não ouvi ninguém da CNBB condenar a demissão em massa de funcionários e professores, como o fazem, freqüentemente, em relação à preguiça psíquica do médico que dirigia nossa economia, ou como fizeram com FHC (FSP. Igreja reforça as pressões sobre FHC. Editoria Brasil, 07/Set/99, p.1-8). De nossa parte, continuaremos a reclamar, tal qual o burlesco e enigmático cavaleiro, “das forças que limitem a liberdade e a dignidade humana” , neste caso a Igreja , preposta e submissa ao capital, gerando novas injustiças sociais.

Reconhecemos nosso “quixotismo”, burlesco e sonhador, tresloucado até, embora neste caso, nossa “ hermosa Dulcinéia del Toboso”, se traduza em alguns poucos homens e mulheres que perderam sua sustentabilidade, e de suas famílias, não obstante tenham vivido os últimos anos demonstrando sacrifícios — estão todos endividados, também, com o bancos credores, pois seus salários além de pagos à míngua, agora se vêm cortados à metade — e o que é mais curioso, com a concordância de todos nós, numa espécie de contribuição à satisfação dos neoliberais que, como anunciava Haroldo de Campos, "... sonha ... um mundo executivo / de megaempresários / duros e puros / mós sem dó / mais atentos ao lucro / que ao salário / ... um admirável / mundo fixo / de argentários e multinacionais / ... um mundo 'privé' /...à prova de balas / ... durando para sempre a festa / estática (ainda que se sustente / sobre fictas / palafitas / e estas sobre uma lata / de lixo".

Dirão alguns, e estão certos, reconheço, que a alucinada coragem necessária para enfrentar a Igreja , e aos mentirosos de plantão, que continuam a negar que entregaram a lista de demissões aos interventores, venha da aparente certeza do depósito de meus vencimentos de Procurador de Justiça em São Paulo — onde minha história também registra momentos de altivez, a enfrentar a improbidade de governantes do passado recente, sem que em momento algum tenha burlado os sistemas de vigilância de meu empregador para dar aulas na PUC, como fizera outrem, que hoje defende a insensata racionalização —, sem depender da esmola espoliadora do BANCOMPLETO ou do Banco com REAL responsabilidade social.

Dirão alguns, e é verdade, é fácil ser altivo, pouco inteligente, estúpido, ignorante, imbecil ou, quiçá, pretensioso ou afetado, quando não há, ao chegar em casa, bocas esfomeadas a alimentar, ou ter de enfrentar o olhar de censura da mulher, companheira, namorada, mãe ou pai, que, provavelmente, seriam pouco solidários diante de tamanha insanidade, como já alertam bons amigos, incluídos ou não na lista de demissões da nossa querida, e já saudosa, Universidade Católica.

Não aceitamos que esta realidade injusta — exceto se houvesse planejamento estratégico adequado ou o diálogo democrático, em que fomos educados na Universidade Católica —, seja imposta pela Igreja com argumentos constantes da citada encíclica Rerum Novarum, e que não se materializarão, quando pontifica que: "...o momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno de uma glória soberana incomparável. Assim, os afortunados deste mundo são advertidos que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo; que eles devem tremer diante das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos; que, enfim virá o dia em que deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito de sua fortuna”.

Assim, do alto de nossa tresloucada reflexão, ousamos sugerir, ao Senhor Hummes, que não espere outro século, ou que outro, que não ele, venha pedir perdão pelos “ maus resultados de suas obras recentes, pois elas distribuir-se-ão por todos os dias do futuro, incluindo aqueles infindáveis, em que já cá não estará para poder comprová-lo e pedir perdão...”, como adverte o romancista português.

Aproveite qualquer cerimônia próxima, Senhor Hummes, e a exemplo do Papa João Paulo II — mal comparando, evidentemente, as ações pelas quais sua Santidade pedira perdão —, e peça perdão pelos seus equívocos, ou melhor, reaja às imposições do capital especulativo.

Tenha certeza que o Senhor recuperará o respeito da comunidade acadêmica e da sociedade, revertendo suas más ações, permitindo que, de forma séria e responsável, todos os professores e funcionários possam oferecer contribuições, como nós as tínhamos, mas sequer pudemos expô-las, para superar uma crise que, de forma alguma, demitidos ou a demitir, tem a mínima responsabilidade.

Aproximando-nos dos poetas — assim preferimos —, saiba, Senhor Hummes, que este incauto, acolheu como paradigma, um exemplo poético de ideologia para viver, como poetisa José Regio, que certamente não usara a razão, ou usara a sua razão, como nós o fazemos agora, ao exortar no poema Cântico Negro: ‘Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: «vem por aqui»! / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali... / A minha glória é esta: / Criar desumanidade! / Não acompanhar ninguém./ Que eu vivo com o mesmo sem-vontade / Com que rasguei o ventre a minha Mãe. / Não, não vou por ai! Só vou por onde me levam meus próprios passos... / ... / Tendes jardins, tendes canteiros, / Tendes pátrias, tendes tectos, / E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. / Eu tenho a minha Loucura! / Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, / E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... / Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. / Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; / Mas eu, que nunca principio nem acabo, / Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. / Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! / Ninguém me peça definições! / Ninguém me diga: «vem por aqui»! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou... / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou, / - Sei que não vou por aí! “.

E ainda se nos for permitido sugerir mais, e mesmo que não o fosse, faríamos da mesma forma, aproxime-se dos poetas tal qual Mario Quintana vos incitou: “Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,/ não falaria em Deus nem no pecado / — muito menos no Anjo Rebelado / e os encantos das suas seduções, / não citaria santos e profetas:/ nada das suas celestiais promessas / ou das suas terríveis maldições... / Se eu fosse um padre eu citaria os poetas, / Rezaria seus versos, os mais belos, / desses que desde a infância me embalaram / e quem me dera que alguns fossem meus! / Porque a poesia purifica a alma / ... e um belo poema — ainda que de Deus se aparte — / um belo poema sempre leva a Deus!”.

Se eu fosse um Cardeal, Arcebispo de São Paulo, Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica, da nossa amada Cidade de São Paulo, ao invés de desqualificarmo-nos (a demissão não nos importa mais, tal a desesperança com os destinos de nossa Universidade), prática conhecida nos meios políticos e rotineiramente utilizada pelo ex-Presidente da República — aquele que pediu para que esquecêssemos o que escrevera e desdenhou sua condição anterior de professor universitário; por gentileza Cardeal, não peça que esqueçamos os postulados da Rerum Novarum e outras boas Encíclicas —, faça melhor, desqualifique-nos dizendo que “buscamos os rotineiros 5 (cinco) minutos de fama”. Seu desiderato será rapidamente alcançado.

De nossa parte, ficaremos com as propostas de Bergamín e Foucault, que refletem o bom conselho de Otto Maria Carpeaux. Para o literato espanhol de era pós-cerventina “Um louco é um homem que perdeu tudo, menos a razão” , e não nos afastaremos do paradigma da loucura quixotesca, citado por Michel Foucault, permitindo-nos tornar “um exemplo de louco que tem razão, sua própria razão. Talvez não com sua loucura, mas certamente com seu protesto” e com a infindável capacidade de ainda nos indignarmos.

Se o herege tem de seu lado o patrono diabólico, ao juiz nunca acodem Deus nem os santos: está só com sua razão” , como já afirmara Renato Janine Ribeiro (FSP. A inquisição é o modelo do totalitarismo . Editoria Mais, 28/Fev/94, p. 6-8), e, curiosamente, a razão judicial determinou a reintegração dos professores demitidos (FSP. Justiça manda PUC recontratar professores. Caderno Cotidiano, 07/04/2006).

A nós, Senhor Hummes, “Guia-nos a só razão/ Não nos deram mais guia/ Alumia-nos em vão?/Só ela nos alumia/ Tivesse Quem criou/ O mundo desejado/ Que fossemos outro que somos/ Ter-nos-ia outro criado...”, afirmava Pessoa nos versos tão conhecidos.

Talvez a melhor opção, Senhor Hummes, própria dos totalitaristas, a exemplo de suas ações recentes, é excomungar os Desembargadores do TRT/SP e este incauto Professor.

Garanto que isto não impedirá nosso acesso ao Céu lugar para onde, segundo as crenças religiosas, vão as almas dos justos —, porque temos certeza, Senhor Hummes, que o Inferno lugar ou situação pessoal em que se encontram os que morreram em estado de pecado, expressão simbólica de reprovação divina e privação definitiva da comunhão com Deus — está empanturrado de Cardeais.