Entre o conhecimento e a fé
Homenagem ao Beato Contardo Ferrini
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| Beato
Contardo Ferrini |
Os intelectuais apresentam como traço comum: a soberba.
Sabem tudo e fazem questão de mostrar aos outros que
sabem mais, bem mais, do que eles. Julgam-se, destarte, um
grupo superior, auto-suficientes.
Nesse ambiente, é mais difícil o apelo religioso,
reservado aos humildes, aos ignorantes.
Quando, no meio da intelectualidade surge alguém credenciado
com saber irrefutável e capacidades acadêmicas
demonstradas pela robusta produção científica
e que sobremais não é soberbo, se situa entre
os humildes com naturalidade, aos outros só resta indagar:
quem é esse ? a quem ele serve? onde pretende chegar?
Respondendo a essas perguntas, cabe-nos conhecer um pouco
desse personagem quase desconhecido que há cem anos
deixava este mundo rumo e embarcava para a eternidade. Sua
significação para o século em que viveu
é tão expressiva que TEODORO MOMMSEN, do alto
da sua autoridade, já disse: como o século dezenove,
para os estudos romanisticos, foi o século de Savigny;
o século vinte deve ser intitulado o século
de Ferrini. Nasceu CONTARDO FERRINI em Milão, no norte
da Itália, em 1859, filho de Rinaldo e Luiza. Desde
cedo nele se uniram o conhecimento e a fé. Quis aprender
tudo muito bem e pretendeu percorrer as fontes do conhecimento.
Desse desejo decorre o seu aprendizado de inúmeros
idiomas, dos quais se destacam aqueles que impulsionariam
os seus estudos de Direito: o latim, o grego, o alemão.
Conhecia também o espanhol, o francês e o inglês.
Para a busca das fontes da verdade religiosa, consubstanciadas
na Bíblia, aprendeu o hebraico, o siriaco e tinha algumas
noções de copto e de sânscrito. Seu pai,
um professor e engenheiro com boa formação já
lhe explicara que ninguém deve confiar nas informações
de segunda mão, ainda quando parta de pessoas eruditas,
resumindo aquela lição que não custa
termos sempre presente: vá direto às fontes
da verdade.
Pois bem, as fontes da verdade jurídica, CONTARDO
FERRINI buscou encontrar nos clássicos. Estudando a
história do direito criminal dela encontrou traços
nos poemas de Homero e de Hesíodo e o trabalho que
escreveu a respeito lhe valeu a láurea na Universidade
de Pavia, no ano de 1880, além da bolsa de estudos
que lhe deu ensejo a estudar na Universidade de Berlim. Dali
retornou para a Itália, com instrumental para publicar
a célebre edição crítica da paráfrase
grega das Institutas de Justiniano, à qual se seguiram
os estudos sobre fontes e história do direito romano,
sua contribuição notável à reconstituição
dos "Basílica" e, ao todo, mais de duzentas
publicações de caráter cientifico.
Seu magistério universitário teve inicio em
Pavia, com a cadeira de direito penal romano e prosseguiu
em Messina, onde lecionou Direito Romano, assim como em Modena,
até que, em 1893 obteve a livre docência em direito
romano, retornando a Pavia, cidade onde cumpriu a ultima etapa
da sua proficiente jornada acadêmica, conquanto residisse
com seus pais na cidade de Milão.
A aliança entre o conhecimento e a fé se impuseram
a FERRINI como algo co-natural. De fato, constatou que a lei
natural nada mais é do que aplicação
da lei eterna, concorrendo ambas para o bem da pessoa e da
humanidade. Percebeu, claramente, que o direito não
pode estar separado de seu fim supremo e que este só
tem sentido com a conquista dos valores que transcendem ao
puro materialismo. Foi capaz, desse modo, de amalgamar, como
sublinhou PIO XII, o trabalho profissional com a vida intima:
o conhecimento e a fé se tornaram, para ele, o verdadeiro
modo de vida.
Sua natural humildade e seu amor aos pobres levaram-no a
identificar-se com os ideais da Sociedade de São Vicente
de Paulo e esses mesmos distintivos, aliados a uma predileção
pelas coisas da natureza fizeram-no Terceiro Franciscano
Viveu em momento histórico particularmente difícil.
A Santa Sé, após a ocupação de
Roma pelos piemonteses em 1870 não queria que seus
seguidores se identificassem com o regime e FERRINI se dedicava
a atividades caritativas no âmbito das associações
a que pertencia até que, com LEAO XIII e a Rerum Novarum,
com sua grave denuncia a respeito da condição
dos operários, um novo papel político foi reservado
aos católicos. Eleito conselheiro municipal de Milão,
FERRINI utilizou conhecimento e fé no desempenho de
suas funções, demonstrando os erros do materialismo
e defendendo os direitos das crianças.
Apreciava a natureza e praticava o alpinismo. Conta-se que
um de seus companheiros de conselho desenhou a caricatura
dos membros daquele colégio e que, a de FERRINI, se
achava aureolada.
Sem embargo, também no lazer não perdia a perspectiva
da fé, como se nota deste seu escrito: "Deus também
fala ao homens nas nuvens, nos altos picos das montanhas,
no fragor das torrentes, na majestade nítida dos penhascos,
no esplendor deslumbrante da neve ao derretida, no sol que
tinge de rubro o fim do dia, no vento que desnuda as árvores.
A natureza vive do sopro de sua onipotência, sorri em
sua alegria para com Ele, oculta-se de sua ira - mesmo assim,
saúda-o , eternamente jovem,com o sorriso da sua própria
juventude. Pois o espírito de Deus pelo qual a natureza
vive é um espírito sempre jovem, que se renova
incessantemente, feliz na neve, na chuva, na névoa,
pois destes fenômenos todos é que surge o nascer
da vida, irrompe sempre de novo e indômita a esperança
e todas as prerrogativas abençoadas da juventude mil
vezes renascida." Passava as férias em Suna (Novara),
junto ao Lago Maggiore e, consta que nas montanhas conheceu
outro apreciador do esporte, Dom Achille Ratti, que mais tarde,
já ocupando a Sé de Pedro como PIO XI, seria
vigoroso promotor de sua beatificação. E foi
ao retornar para Suna, após uma escalada ao monte San
Marino, no Valle Anzasca, que se constatou a doença
de que viria a falecer: o tifo. Tinha apenas quarenta e três
anos de idade quando, aos 17 de outubro de 1902, descansou
na paz do Senhor.
Seu apreço pela conciliação entre conhecimento
e fé fizeram dela um dos primeiros entusiastas da criação
de uma Universidade Católica na Itália e quando
da instituição da Università Cattolica
Del Sacro Cuore foi reconhecida sua ação de
precursor e inspirador. Seu venerado corpo está sepultado
na cripta da Capela daquela que é a primeira das Universidades
Católicas do mundo e seu busto em bronze ornamenta
a entrada do edifício principal dessa instituição
universitária de Milão que, com júbilo
comemora o centenário do dies natalis do filho dileto
daquela cidade.
No dia 13 de abril de 1947, o Papa PIO XII inscreveu o nome
de CONTARDO FERRINI no Catálogo dos Beatos, depois
de terem sido proclamadas as suas virtudes heróicas
em 1931.
Os escritos jurídicos de FERRINI foram recolhidos
na Opere di Contardo Ferrini, em cinco volumes publicados
sob os cuidados de E. ALBERTARIO, V. ARANGIO RUIZ e P. CIAPENSSONI,
com prefácio de PIETRO BONFANTE (1929-1930) enquanto
que os estudos espirituais, Scritti religiosi di Contardo
Ferini foram estampados por C. PELLEGRINI em Milão,
no ano de 1912. Do mesmo autor é La vita, publicada
em Turim, em 1928.
Em outubro de 1947, na Semana Ferrini, o Bemaventurado CONTARDO
FERRINI foi proclamado Patrono da Faculdade Paulista de Direito,
da Pontifícia Universidade Católica e, a Sala
de Reuniões da mesma Faculdade homenageia o seu nome.
Alguém, que passeava pelas ruas de Pavia avistou aquele
homem de vastas sobrancelhas, barbudo e de sobrecasaca, e
indagou a seu acompanhante: "O que há de especial
nesse homem ? " E o outro respondeu: "Ele é
um santo !" Nada, em seu natural, o distinguia das demais
criaturas, porem seu trabalho profissional (o conhecimento)
estava ligado indissoluvelmente ao seu ideal (a fé).
E não era precisamente isso que o tornava tão
distinto de todos os seus coetaneos? |