Pensando São Paulo
Caminhava pelas ruas, estes dias, e tropecei em algo que me fez lembrar do velho Drummond. Não, não era uma pedra, o verso não se encaixou nesta situação. Era mais uma porção de lixo doméstico. Pensei: “realmente, até com o lixo podemos fazer poesia...”. Lixo, aquele, envolvido por um saco plástico preto, que, justamente por assim ser, escondia o tipo de resíduo que as residências em frente expeliam.
Ao ficar observando, comecei a prever o futuro daquele saco: antes mesmo de sair dali, logo iria ser devastado por um cão ou alguma pessoa que a ele, naquele e em outros momentos, igualava-se, ambos em procura de alimentos, utilizando-o como única maneira de subsistência, sobrevivência.
Em seguida – na madrugada ou no dia seguinte, provavelmente -, um caminhão de lixo por ali passaria e, sob a resistência física de seus homens, resgataria o que restou daquele saco destruído. Pensei: “é interessante o contraste de motivos para uma mesma finalidade – o focinho do animal invade o saco para se alimentar, bem como as mãos do outro animal faminto. No entanto, por outro lado, vem o lixeiro, que corre atrás de lixo, também para abastecer, indiretamente, sua casa e sua família. Como o lixo é tão importante!”.
Bem, após o carregamento do caminhão, imagino a descarga nas áreas – muitas delas denominadas lixões - em que se costuma desembocar os resíduos, em tese, sólidos, provenientes, teoricamente, das residências e estabelecimentos comerciais. Ignorei, perceba, o pensamento que ilustrava a quantidade de lixo industrial misturado a esse lixo doméstico.
Novamente, um sentimento de aflição tomou conta de mim, na medida em que outras famílias surgem, agora nos lixões , para, mais uma vez, obterem “alimentos” para seus pares, na busca pela continuidade da sobrevivência. Pessoas que – como aqueles resíduos industriais no meio do lixo doméstico – misturam-se aos diversos detritos, privilegiando-se aquela família cujo membro tenha a sorte de se deparar diante de um resto de carne, já esfacelado, quase carregado pelas moscas.
Ao prosseguir na viagem insólita, vem em minha mente o aumento do número de pacientes nos hospitais, obviamente públicos, situados naquela periferia urbana, justamente em razão das doenças espalhadas. Novamente penso: “Como o lixo é importante!”
Os remédios adquiridos têm suas embalagens descartadas nos próprios lixos residenciais, os quais, evidentemente, terão o mesmo destino desta breve história.
Lembrei-me que o restante do lixo – aquele não sugado pelas famílias nos lixões – ali permaneceria, até que fosse sujeito à queimada, passando, então, a deixar o espaço para novos lixos triturados, misturados e recebidos por aqueles caminhões que transitam nas cidades fornecedoras de “alimentos” à parte da população situada abaixo da famigerada linha de pobreza .
Um pensamento paralelo e agressivo invadiu-me a consciência trazendo a tona as imagens dos rios – essencialmente os dois marginais de maior densidade (Pinheiros e Tietê), na cidade de São Paulo. Obviamente, grande parte dos tóxicos presentes nesses lençóis é composta por lixo doméstico, situação fruto da própria ausência de cultura ambiental, sobre o que dispõe a Constituição Federal em seu artigo 225, § 1º , inciso VI, imputando ao Poder Público a responsabilidade de exercer tais atividades (isto, ao desconsiderar a descarga de resíduos orgânicos e inorgânicos que emergem das indústrias). Acabamos, assim, por entender porque a represa Billings (que se serve do Rio Pinheiros) está com apenas vinte e cinco por cento de sua capacidade absoluta e natural, justamente (entre outros menos relevantes motivos) em razão do desleixo humano para com o lixo produzido pela população costeira ao lago. Tal problema obsta uma das principais funções da represa: envio de água, pela Serra do Mar, ao litoral sul do Estado Paulista.
Neste diapasão, lembrei-me, também, das enchentes, produto que são do entupimento causado pela mistura explosiva: lixo urbano (geralmente doméstico) e solo impermeável (reflito sobre épocas em que os habitantes deveriam pavimentar suas calçadas cujo alicerce ainda fosse feito de capim e terra).
A partir dessa divagação, bloqueei meu pensamento e voltei a caminhar. Meu andar fez-me processar os diversos problemas decorrentes do lixo a fim de se alcançar soluções.
Por primeiro, verifiquei as medidas estatais paliativas geradas pelo Poder Público na busca pela imediata resposta à sociedade, porém, defasadas a longo prazo, e que, ao mesmo tempo, não cortaram o mal pela raiz, mas sim por um dos galhos, perpetuando-se envenenado o restante da árvore da poluição.
A Administração Pública ignora, acima de tudo, a grande porção da pedra de gelo imersa e escondida na água dos problemas ambientais, trazendo soluções lacunosas apenas à ponta desta montanha gélida, parte emersa e sobre a qual recaem as reivindicações sócio-ambientais.
Vejamos os piscinões , vários na cidade de São Paulo, apenas, porém, em bairros onde reside população de média e alta influência política. Nos bairros da periferia, onde coincidentemente há maior número de rios e córregos, a assistência estatal é diminuída sensivelmente. Servem, então, aqueles piscinões unicamente para receber a água da chuva, que não mergulha nos solos de concreto urbanos paulistanos.
No mesmo passo, vêm os filtros, por exemplo, colocados nas chaminés e saídas de esgotos das indústrias de modo que menor quantidade de resíduos – geralmente menos tóxicos e de menor tamanho – siga para o meio ambiente natural. Ou seja, é o meio ambiente artificial sobrepondo-se ao natural.
Soluções aproveitáveis aparecem, entre outras fontes, por cantos alheios ao território brasileiro, como aquela que permite ao Poder Público exigir das indústrias o recolhimento, nas residências, dos lixos compostos por embalagens de sua própria produção, reciclando-os. Desta forma, a empresa beneficia-se do menor gasto com a produção ao reutilizar o mesmo material. Já a coletividade ganha com a diminuição dos preços dos produtos e, mais ainda, com a melhoria do meio ambiente artificial, correspondendo, por óbvio, a uma melhora do meio ambiente natural.
Por outro lado, poderíamos pensar na seguinte saída: a implementação de recipientes biodegradáveis de lixo onde seriam acondicionados plástico, vidro, papel, e metal, e seus respectivos derivados. Seriam colocados na origem da produção do lixo (residências, escritórios etc). Partindo-se da criação de lei que obrigue a aquisição gratuita desses recipientes, sob pena de incursão em infração administrativa, caminhões – agora, em quantidade multiplicada diversas vezes – passariam a transitar da mesma forma que caminhões comuns – que deixariam de funcionar – coletam o lixo heterogêneo.
Depois, poder-se-ia recolher os sacos, um de cada cor (conforme já implantado em algumas localidades brasileiras), em caminhões distintos, evidentemente. Tais veículos seguiriam para as empresas cadastradas à compra de tais lixos, obviamente, especialistas em reciclagens, quando não propriamente empresas fazedoras dos produtos e, ao mesmo tempo, desenvolvedora de reciclagem. Adquiriam o lixo por um baixo preço, pre-estabelecido pelo Poder Público, na medida em que tal receita seria utilizada para os gastos dos caminhões e salários dos empregados, absorvidos de agências de empregos, vencedoras de procedimentos licitatórios. Ou seja, este ciclo teria como fim gerar receita para o Poder Público, a ser utilizada, como vimos, na própria melhoria do meio ambiente. Tal receita permitiria, também, sustentar a distribuição gratuita dos recipientes de lixo nas residências e nos estabelecimentos comerciais. Então, os habitantes da cidade de São Paulo não obteriam despesas com o projeto ambiental de reciclagem; as empresas que a desenvolvem e/ou confeccionam os produtos/embalagens adquiririam o lixo do qual fariam novos produtos/embalagens – daí sai o menor preço de custo gerando menor preço de venda -; as agências de trabalhadores haveriam de resgatar toda a população que labora no ramo clandestino (catadores de latinha e papelão) e remetê-la, sob salário fixo, para o emprego nos caminhões e outras dependências do projeto de reciclagem, de forma a se estimular ainda mais o aumento do alto índice brasileiro de produção de alumínio; a coletividade, por fim, beneficiar-se-ia do projeto na medida em que o meio-ambiente seria dotado de menor quantidade de lixo, e os custos de compra dos produtos seriam mais baixos.
Quem sabe um dia eu tropece numa pedra e não me lembre de remota possibilidade de ser aquilo uma porção de lixo.
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